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sábado, 9 de abril de 2011

Amor de Inseto


   O quarto semiescuro tinha apenas duas janelas e parecia vazio. Uma cama grande ocupava quase todo o espaço. Ao lado dela, uma pequenina mesa e uma barata que lentamente circundava um de seus pés de apoio. O animal era ou estava lento e não demonstrava medo, mesmo não estando sozinho ali.



Os dois que lhe faziam companhia estavam de pé e olhavam-se em silêncio.
Para uns e outros, o olhar direto é insustentável, mas não para eles. Ao menos, nunca fora. Afinal, há quem suporte um olhar por alguns segundos, mas não é fácil mantê-lo por um contato inteiro. As pessoas podem passar horas dizendo nada mas não conseguem sustentar um só olhar em silêncio. Eles não se falavam, mas sabiam estar ali para o amor.
Quantas são as coisas ditas por um olhar! Ter ciência do poder do olhar e do silêncio juntos já dá ao sujeito tamanha vantagem que só isso já vale uma noite longa de discussões inúteis.
Ao lado da cama, a pequena mesa fazia a base para uma taça que a mulher via quase vazia de vinho; e reparou na camiseta jogada bem perto. Poderia tê-la jogado sobre a taça e aí o estrago seria definitivo. Seguiu-se o remorso. Não tanto pelo devaneio superficial, pouco comum naquelas situações, e mais por se ver animada com a imagem da taça estilhaçando e do vinho todo se perdendo para sempre.
A barata, porém, a trouxe novamente à realidade quando se moveu em sua direção. Uma repulsa enorme assomou-se e foi logo substituída pela vontade de empurrar a taça e encerrar tudo aquilo.
O homem também movera-se em sua direção fazendo-a esquecer por hora, e mais uma vez em sua vida, a vontade de quebrar a taça. Dois passos dele e dois passos dela; ele para ela, ela para trás. Pararam e ela observou daquela distância, o tronco nu que tantas vezes lhe atraíra às mordidas e que agora estava diferente. Sentiu-se confusa e teve o ímpeto de ajudá-lo com o cinto e, por isso desta vez, aproximou-se. Mas um novo rastro do rasgar da barata a fez congelar. Ela quase podia ouvi-la gastando o chão.
Não sentia medo. Só repulsa que não desgarrava do seu peito e que subia para a garganta. Chegou a sentir o gosto do asco na boca, sem saber ao certo se do inseto ou de seu homem.
Ela se sabia bonita. Ele mesmo fazia sempre questão de olhá-la do mesmo jeito que a olhava agora. Sem uma palavra, ela o ouvia dizendo o quanto era linda, atraente e o quanto seu corpo o desconcertava. Esta maneira quieta de dizer as coisas sempre a excitava.
Mas agora havia uma barata.
No caso dele, pensou a mulher, os olhos gritam, esperneiam. Ou por outra, não os olhos, mas o olhar. Esta é a diferença e o que muda tudo. Os olhos são carne, mas é o olhar que dá vida e alma a eles. É o olhar que escancara as máscaras e coloca exposta a miscelânea de dogmas, de paradigmas, de preconceitos. Nas coisas de amor, o olho é inerte; o olhar vive e sofre metamorfose.
Ele aproximava-se mais e com a mão direita, tocou nela. Por sobre seu ombro, viu a barata ainda ao lado da mesa, inabalável. Olhou e não se ateve. Quis pegar a taça, para ele quase cheia, e beber um gole a mais do vinho, mas o calor e a textura daquela pele distraíram-no.
E como ali não houvesse som, o que fora e o que não fora dito ficou pelo nível dos olhos. De dentro, ele reclamou do silêncio e do vazio do olhar porque não havia naquele instante como ele perceber que era justamente o vazio que a mantinha longe de tanta dor inexplicável. A dor do distanciamento sem separação tornara-se menor quando ela, enfim, aceitou o vazio que tomara sua alma, a solidão do corpo poderoso, o silencio do seu próprio olhar. Mas isso, os motivos, ele jamais saberia.
Se tudo fica no nível do olhar, a primeira gota do ácido instilado é a pressuposição, o muito imaginar do que pensa o outro, a volúpia de se invadir a outra mente todos os dias. E era isso mesmo, pois em seu íntimo, ele também reclamava por não ser entendido na eloquência cúmplice do seu olhar e silêncio. Ela sabia e há muito culpava-se por isso.
Mas como saber se não fora mesmo entendido? Também ela deduziu a questão porque viu nele um vazio do olhar. Ou achava que via... Presumia.
Eis o demônio de dois. As relações em essência são presunçosas e recheadas de expectativas tortas, enquanto cada um tenta um meio de apaziguar suas frustração no outro. E ao final das contas, querer presumir é dar o primeiro passo no abismo.
Ela sentia toda a vontade dele que lhe crescia próxima, mas não se desligou do inseto. Como será o amor entre as baratas? Haveria algum tipo de prazer nisso? Um discreto calor deslizou com o pensamento por sua pele e foi aquilo o que mais aproximou-a de qualquer prazer. No mesmo instante, percebeu um toque gentil e pesado nas costas. Ela entristeceu por saber que já achara aquelas mãos mais leves e bem menos ásperas antes. Fechou os olhos e viu a taça se quebrando de novo.
Foi quando deixou que sua saia caísse ao chão, mecanicamente. Suas longas pernas postavam-se semicerradas como dois totens a guardar os portões de uma sala sagrada.
Fez um esforço, uma tentativa para desligar e sentir de novo a paixão do amor que já não sentia mais, como se, em exercício de repetição, pudesse recuperar o sentimento perdido. Só o que viu foi seu homem transfigurado em inseto que invadia um enorme portão a gritos e pontapés.
Assustada, abriu os olhos. Saltou para trás em busca da barata. Olhou o animal e olhou seu homem. Ela agora sabia de onde nascia o medo. Chorou pelos olhos, lágrimas não tão doloridas quanto as de sua alma.
Levantaram juntos a cabeça e já não se viam mais. O olhar tornou-se carne, perdeu vida.
Ato contínuo, ela aproximou-se da mesa e elevou o pé esquerdo descalço sobre a barata. Lentamente, pressionou o inseto contra o piso frio enquanto empurrava com o dedo indicador da mão a taça de vinho, para ela, já quase vazia.
O homem não pôde discernir entre os sons do estalar do inseto e do vidro que espalhava incontáveis cacos pelo chão. Ela, porém, deu-se por satisfeita por perceber que há muito não distinguia a repulsa nem tampouco os sons... e que fora graças a esta bruma toda que conseguiu enfim, um futuro.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A prostituta


- De onde você é? A cara não é boa, mas isso pode mudar. Não bebe nada, não quer pensar em outra coisa? Acho que você precisa relaxar.
- Acho que você acha demais. Se você quer beber algo, vá direto ao ponto, peça e eu pago.
Apesar da pouca simpatia para uma aproximação, ela aceitou. Pediu vodka com limão e sal. Duas doses se foram, simultâneas. A terceira ficou ali, nutrindo pensamentos. “Por que é que não me levanto e pronto? O que me faz ficar aqui? Tinha orgulho de ser observadora, sempre fora. Sensibilidade não lhe faltava. Não demorou para que tecesse um relatório completo do estranho. “Moreno, 35 anos de idade, porte atlético sem exagero, cerca de um e oitenta e olhos...” bem, naquele ambiente seria impossível saber e preferiu ignorar a cor dos olhos. Rosto de traços fortes, queixo largo e barba que já desistiu de nascer. Uma cicatriz na sobrancelha direita que interrompe a fileira de pêlos mas não prejudica o conjunto. Os ombros são mais estreitos do que ela gostaria. E pára por aí. Nunca gostou de seguir adiante. Medo de arriscar, em tudo.
- Mas, mas o que há com você, vai ficar aí olhando através de mim?, disse o estranho perguntando, sem meias palavras, se era efeito de beck. Ela negou não dando importância para a grosseria, afinal, estava fazendo o que mais gostava de fazer. Usava todo seu sentido apurado para deduzir a vida, a personalidade, a psique do outro. De alguma maneira, isso lhe dava segurança. Pouca, mas dava.
E continuou: “Na mão esquerda, a marca pálida do dedo anular denuncia aliança removida. Divórcio na certa. Sozinho a esta hora aqui, não pode ser outra coisa. Agora, o jeito grosso e de pouca conversa, e a forma tosca com que quase me comeu com os olhos quando minha saia subiu um pouco não deixa muita suspeita se é gay ou não. Certeza que não”. Se bem que sobre isso, nem tanta certeza assim. “Filhos? Um talvez, no máximo dois. Homem cheio de filhos, nem divorciado vem parar num lugar destes porque fica idiota, mais burro ainda, e pior, brocha”.
- Ei, quanto?, perguntou ele enquanto circundava como o dedo a azeitona no copo largo de Dry Martini que pedira há dois minutos.
Ela ouviu a pergunta como se não fizesse parte da cena. O cara era  realmente direto e isso despertava nela um estranho desconforto.
- O que? Quanto? Você fala como se tivesse convicção de quem eu sou e do que eu quero, disse ela tentando disfarçar o embaraço.
- Uma noite, quanto você quer por esta noite?
- Qual o seu nome?, ela quis saber sem conseguir esconder a necessidade de ganhar tempo para pensar.
- Victor, só Victor, mas o que um nome tem com isso?
- Ora, nome é sempre nome e serve para o que sempre serviu. As pessoas são quem são porque têm um nome.
Dando de ombros, Victor emendou:
- Eu não sei o seu e você pode bem servir para o que eu preciso sem que eu jamais saiba seu nome. Um nome é só um nome, não tem relação alguma com identidade, personalidade. Nome é uma referência que foi criada quando as pessoas começaram a ter medo (ou preguiça) de perceber o que realmente importa nos outros.
- E o que importa no outro, senhor filósofo anônimo?
- Mais que qualquer outra coisa... Deixa pra lá. Vai me dar um preço ou não?
- Mil. Duas horas apenas. E é Samantha.
- Pago o dobro pela noite toda, mas sem meias verdades. Eu não pedi, mas se quer me dar o nome, fale a verdade.
 O coração de Samantha quase lhe atravessou a garganta. A ideia é que ele não aceitasse. No fundo, não queria que aceitasse. Teve medo. “Medo? Dele ou do que ele dizia?”. Só porque não o conhecia não significava que fosse um louco sadomasoquista. Súbito,  vieram- lhe cenas de Snuff Movies que ela imaginara ao ler uma ficção a respeito.
Mas por algum motivo oculto, tratou de contrariar a si mesma. Por ter sentido medo, resolveu entrar no jogo.
- Ok, venceu mais uma. Eu aceito, mas vá sabendo que não faço...
- Não se preocupe, sou bastante convencional. Quem sabe até monótono. Não vou exigir nada que você não queira.
- Aff... Monotonia é tudo que eu não preciso hoje. Mas vá lá.
- E o nome?
- Você não dá valor... deixou claro isso – disfarçou ela.
- Agora que mentiu, quero saber.
- Não menti, omiti. É Clara. Meu nome é Maria Clara, mas eu o-d-e-i-o Maria. Desse jeito então, só Clara.
***

O modo seco de Victor parecia não acompanhá-lo mais. Quis saber de Clara se o apartamento dele lhe seria inconveniente, enquanto abria a porta do Citroën. “Carro de velho”, pensou ela ao mesmo tempo que sorriu alto da pergunta.
Do apartamento, nenhuma surpresa. Talvez o nervosismo não permitisse que ela prestasse muita atenção no ambiente. Notou porém uma organização e uma limpeza atípicas para alguém potencialmente solteiro, quase que certamente divorciado.
- Aposto que você é desses malucos intelectualoides que trazem a mulher para cá, pagam caro e querem passar a noite batendo papo, chorando mágoas e falando mal da ex-futura-esposa. A frase foi dita na ansiedade de quebrar o gelo e ela se arrependeu um segundo depois. Já era tarde.
Sem demonstrar qualquer expressão de contrariedade, Victor aproximou-se sem liberá-la o olhar. Em silêncio, ela sentiu que seus seios tocavam o peito de Victor, que suas pernas e sua cintura a milímetros de distância provocavam nela uma descarga tal de adrenalina que sentiu o arrepio subir-lhe pelas costas. 
“Tem alguma coisa errada”. Clara perdera o controle da situação. Sentia medo, mas uma excitação nova roubava-lhe a razão. De repente parou de pensar e deixou-se envolver pelas mãos que já percorriam suas costas, sua nuca e, lentamente, passaram a desvendar seu corpo. Sem poder se dar conta de nada, viu-se nua sobre o tapete da sala e algo naquele olhar do estranho dava-lhe a certeza de que deveria se entregar. Lenta e delicadamente, Victor a cobriu com seu corpo e entregou-se, enfim, ao calor de um momento que há muito ele não conseguia desfrutar. Desde agora, nada mais foi lento e nada mais tão delicado. Toda racionalidade deu lugar a instintos expressos em sons e em suor. No final, o sorriso, o cansaço... e o vazio.

***

- Por que eu?
- O que?
- É, por que você me escolheu naquele bar?
- Eu não te escolhi, você puxou papo. E por que?
- É, mas você gostou de mim.
Victor silenciou.
- Você é divorciado, certo? Digo, já foi casado.
- Já, já fui casado.
- E não deu certo?
- Claro que deu.
- Então, por que não usa mais aliança?
- Não estamos mais juntos, então, não tem porque usar aliança.
- Ok, não quer falar sério! Típico: marido entediado resolve sair e mudar de ares. Tira a aliança e aqui estamos. Eu não ligo pra isso. Sério mesmo, pouco importa se você trai ou não sua mulher. Os homens, todos eles, entram nas relações com uma determinação clara: conquistar a mulher e se desafiar, diariamente, com outras. Então, você não é...
- Eu fui casado sim. Fomos casados durante quatro anos e meio, mas ela se foi.
- Fugiu com outro? Olha, essas coisas acontecem com...
- Morreu há 28 dias. Esclerose Lateral Múltipla, doença neurológica que destrói a proteção isolante dos neurônios e que é comum em mulheres entre 20 e 30 anos de idade. Minha mulher morreu aos 32 anos. Literalmente, ‘entrou em curto-circuito’.
Clara sentiu o sangue preencher seu rosto mas não disse nada. Calou-se por um longo minuto até que Victor ajudou-a a recobrar a consciência:
- Não se preocupe, não teria dado certo.
- O que você está dizendo? Seu casamento não teria dado certo?
- Claro que não.
- Estavam tendo problemas?
- Não. Estávamos bem.
- Então?
- A questão é que casamento é apenas uma das expressões que o homem criou para suprir angustias de sua alma. Tal como o nome. E como tudo que compõe nossa vida com esse propósito medíocre, torna-se apenas um ciclo.
- Para você, então, nenhum casamento pode dar certo. Não é meio radical?
- Para mim, toda relação, todo casamento tende a dar certo. É aí que você se engana. Enquanto o ciclo não se fecha, pode-se dizer que tudo deu certo. No meu caso deu e a morte da minha mulher veio para interromper nosso ciclo antes que ele se fechasse. Esses são os amores eternos. Mas só estes. É a sensação de nossos avós.
- Relações para a vida inteira! – disse Clara em tom de ironia.
- Até que morte separe a todos. Ou o ciclo.
- Victor, preciso te contar uma coisa porque não fui totalmente sincera com você.
- Você está liberada da regra da verdade. Estou feliz com você como é. Algumas verdades são capazes de matar e é melhor que não sejam reveladas.
- É, mas neste caso, eu prefiro que você guarde a imagem de quem eu sou realmente.
- Não vou guardar por muito tempo, acredite...
Silêncio.
- Antes de descobrir a doença de minha mulher fui a um pneumologista por causa de dores no peito. Em dois dias eu estava internado com diagnóstico de câncer de mediastino, uma das formas mais agressivas que um carcinoma pode assumir. Achei que teria o privilegio da melhor morte. Mas o presente foi dela.
- Melhor morte? Ficou louco? Presente?
- Se eu pudesse escolher a hora da minha morte, teria partido há seis meses atrás. Eu estava no auge, feliz. As pessoas deveriam ter o direito de morrer enquanto estão muito bem, mas em geral isso assusta. Pense se não é injusto morrer em sofrimento, doente. Eu vou morrer assim.
Clara levantou-se, vestiu suas roupas em silêncio.
- O que as pessoas mais dizem é que fulano era um coitado porque morreu numa fase tão boa, saúde de ferro. Ninguém percebe o privilégio que é.
Abrindo a carteira, Victor contou o dinheiro e pensou no número do telefone dela, mas desistiu de pedir.
- Obrigado, mas não quero seu dinheiro – disse Clara sem olhar para ele.
Victor claramente não entendeu.
- Na verdade, eu não sou prostituta. Nunca fui e não estava trabalhando. Eu esperava uma amiga que simplesmente não apareceu. Vi você, resolvi me desafiar e puxar assunto. A coisa fluiu e a ideia de você pensando que eu queria dinheiro em troca de sexo me causou um sobressalto. Susto no começo, excitação logo depois. Acho que enlouqueci e aceitei.
- Mas... você... quem...
- Não precisa saber mais de mim. Sou uma mulher qualquer que acredita no ciclo, mas só no ciclo da vida. Eu ainda prefiro pensar que amores podem durar mais.
- Entendo.
- Ah! Você me perguntou porque resolvi puxar papo. Acho que, de alguma maneira, vi em você minha necessidade de pensar em mim, de repensar minha vida. Você me fez questionar muitas coisas só com o olhar. Acertei na mosca.

***

Clara resolveu caminhar alguns quarteirões antes de pegar um taxi para casa. Não aceitou a carona de Victor, quis deixá-lo ali, definitivamente. Ele lhe dera tudo em pouco mais de 2 horas e ela não queria ir além.
“Morrer quando se está bem”. Era disso que ela estava precisando. Uma voz e um mantra que a fizesse querer estar bem sempre. O medo de arriscar acaba por desvanecer quando a vida e a morte escancaram suas faces de forma tão nua. Aquele dia seria, para ela, um princípio... seu pequeno ponto de partida.
Pegou o celular e ligou para a amiga que não aparecera no bar...

***

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Piscar de Olhos


- Se eu ganhasse uma bolada na Mega Sena eu acertaria a vida de (quase) toda minha família e sumiria do mapa por uns 3 anos, disse-me um amigo dos tempos de faculdade. Essa é uma sentença já bem conhecida. Quase todo mundo um dia já pensou algo assim. Mas um bar e um amigo dos tempos de faculdade quase sempre nos levam a outras conversas. Da Mega Sena, rapidamente passamos ao passado e ao futuro. Com amigos do tempo de faculdade, quase nunca se fala do presente. Estranho isso. Quase nunca mesmo!


- Daqui há 10 anos, o que eu quero mesmo é reduzir essa maldita rotina, dizia ele. Outro clichê em mesa de bar com amigo do tempo de faculdade. E é incrível como estas frases repetidas tantas vezes, continuam nos dando esperanças. O fato é que eu devo ter ficado uns bons 15 minutos com aquela ‘cara de paisagem’, olhando não para, mas través do meu amigo do tempo de faculdade. E aí desembestei.

“Quando eu tiver cinco... ou mesmo quatro anos de idade, é bem provável que eu ache os pulinhos que meu filhote de gato dá sobre uma folha de árvore são a coisa mais engraçada do mundo”. Eu nunca rira tanto, nem com meus 40 anos... Com cinco, porém... ou mesmo com quatro, vou ter a certeza de poder ficar ali, olhando o gato por horas. Porque, se tudo der certo, não vai haver tempo para se perder. Meu tempo com o gato vai ser meu único e meu melhor tempo.

“Nunca tive relação melhor com as pessoas do que quando passei 60 anos”. Com a maioria delas, eu acho. “Especialmente as mais difíceis. Interessante porque, naquela época, nenhuma frase me ofendia. Nada para mim era pessoal. Acho que eu sabia mais das pessoas e elas não me roubavam a tranquilidade. E como era bom não ter medo de ninguém, não se intimidar por ninguém. Eu queria mesmo era conversar sem interesse algum, mas não me fazia diferença alguma a opinião dos outros”. Engraçado isso.

Bom, aí eu fiz 33. Não me lembro bem, mas acho que foi ali que eu perdi a capacidade de dizer ‘não’ e isso me causou problemas. Até onde me lembro, eu costumava ter boa noção do que queria e, por isso, dizia não quando era preciso dizer. É estranho, mas o tempo passa, vamos ficando jovens e perdendo essa capacidade. Parece que tudo fica turvo. Meu papel no mundo, meus objetivos e minhas ambições... tudo isso fica atrás da cortina, ou melhor, a gente se confunde com os objetivos... dos outros. Aí fica difícil saber a quem seguir e por quem se deixar seguir.

E até meus 28, as coisas se mantinham naquela inércia natural da vida. A inércia resultante da tal falta de visão do futuro. Pensando bem, a ignorância pode ser uma dádiva e tudo parece que vai se manter como está. Mas não vai!

Porque naqueles 28 nasceu alguém. Não foi um susto, mas um evento desses vem carregado de expectativas, de medos, de muita emoção. Eu não sei bem porque, mas esse é o tipo de evento que faz a gente começar a olhar toda nossa vida de outra perspectiva. Foi a partir do nascimento que eu comecei a ver minha vida assim... de trás pra frente.

- Ei! Ô cara!! Tá maluco?? Ta viajando???

Todo amigo do tempo de faculdade tem uma paciência minúscula com a gente. É sempre assim. É isso que é legal nesse tipo de amigo. Eu não ouvi uma só palavra do que ele dizia e quando percebeu isso, me deu um chacoalhão! E a gente continuou ali... falando da turma, falando da Mega Sena, reclamando da profissão.

Já se vão 5 anos desde aquele nascimento e eu continuo olhando tudo às avessas... Pensando bem, criei minha autodefesa. Dói menos pensar no futuro quando, de alguma maneira, ele já passou. Aquele nascimento vai ficando para trás, cada vez mais distante, mas quando penso nele como o grande acontecimento por vir... dá menos saudade.

2010, aliás, foi sensacional!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

De trás pra frente


- Se eu ganhasse uma bolada na Mega Sena eu acertaria a vida de (quase) toda minha família e sumiria do mapa por uns 3 anos, disse-me um amigo dos tempos de faculdade. Essa é uma sentença já bem conhecida. Quase todo mundo um dia já pensou algo assim. Mas um bar e um amigo dos tempos de faculdade quase sempre nos levam a outras conversas. Da Mega Sena, rapidamente passamos ao passado e ao futuro. Com amigos do tempo de faculdade, quase nunca se fala do presente. Estranho isso. Quase nunca mesmo!


- Daqui há 10 anos, o que eu quero mesmo é reduzir essa maldita rotina, dizia ele. Outro clichê em mesa de bar com amigo do tempo de faculdade. E é incrível como estas frases repetidas tantas vezes, continuam nos dando esperanças. O fato é que eu devo ter ficado uns bons 15 minutos com aquela ‘cara de paisagem’, olhando não para, mas través do meu amigo do tempo de faculdade. E aí desembestei.

“Quando eu tiver cinco... ou mesmo quatro anos de idade, é bem provável que eu ache os pulinhos que meu filhote de gato dá sobre uma folha de árvore são a coisa mais engraçada do mundo”. Eu nunca rira tanto, nem com meus 40 anos... Com cinco, porém... ou mesmo com quatro, vou ter a certeza de poder ficar ali, olhando o gato por horas. Porque, se tudo der certo, não vai haver tempo para se perder. Meu tempo com o gato vai ser meu único e meu melhor tempo.

“Nunca tive relação melhor com as pessoas do que quando passei 60 anos”. Com a maioria delas, eu acho. “Especialmente as mais difíceis. Interessante porque, naquela época, nenhuma frase me ofendia. Nada para mim era pessoal. Acho que eu sabia mais das pessoas e elas não me roubavam a tranquilidade. E como era bom não ter medo de ninguém, não se intimidar por ninguém. Eu queria mesmo era conversar sem interesse algum, mas não me fazia diferença alguma a opinião dos outros”. Engraçado isso.

Bom, aí eu fiz 33. Não me lembro bem, mas acho que foi ali que eu perdi a capacidade de dizer ‘não’ e isso me causou problemas. Até onde me lembro, eu costumava ter boa noção do que queria e, por isso, dizia não quando era preciso dizer. É estranho, mas o tempo passa, vamos ficando jovens e perdendo essa capacidade. Parece que tudo fica turvo. Meu papel no mundo, meus objetivos e minhas ambições... tudo isso fica atrás da cortina, ou melhor, a gente se confunde com os objetivos... dos outros. Aí fica difícil saber a quem seguir e por quem se deixar seguir.

E até meus 28, as coisas se mantinham naquela inércia natural da vida. A inércia resultante da tal falta de visão do futuro. Pensando bem, a ignorância pode ser uma dádiva e tudo parece que vai se manter como está. Mas não vai!

Porque naqueles 28 nasceu alguém. Não foi um susto, mas um evento desses vem carregado de expectativas, de medos, de muita emoção. Eu não sei bem porque, mas esse é o tipo de evento que faz a gente começar a olhar toda nossa vida de outra perspectiva. Foi a partir do nascimento que eu comecei a ver minha vida assim... de trás pra frente.

- Ei! Ô cara!! Tá maluco?? Ta viajando???

Todo amigo do tempo de faculdade tem uma paciência minúscula com a gente. É sempre assim. É isso que é legal nesse tipo de amigo. Eu não ouvi uma só palavra do que ele dizia e quando percebeu isso, me deu um chacoalhão! E a gente continuou ali... falando da turma, falando da Mega Sena, reclamando da profissão.

Já se vão 5 anos desde aquele nascimento e eu continuo olhando tudo às avessas... Pensando bem, criei minha autodefesa. Dói menos pensar no futuro quando, de alguma maneira, ele já passou. Aquele nascimento vai ficando para trás, cada vez mais distante, mas quando penso nele como o grande acontecimento por vir... dá menos saudade.

2010, aliás, foi sensacional!

domingo, 17 de maio de 2009

Inveja é utopia.

A inveja não existe. É utopia.
Como é possível aceitar a idéia de que o ódio, desgosto e descontentamento possam ser gerados pela simples felicidade ou pelo sucesso de outrem? Este conceito, puro e simplista assim, não pode existir por si só. Deve haver explicação plausível e mais profunda.
É da natureza humana amparar suas frustrações e suas incertezas no sucesso, nas conquistas e nas superações de quem se destaca. O sucesso alheio é a desculpa de quem não conseguiu tanto, e poucos venenos são tão mórbidos quanto as preocupações que desperdiçamos com o que outros têm ou fazem. Nossos objetivos deveriam se basear em nossas próprias necessidades e expectativas. E só nelas.
O perigo de concentrar todas as referências em umas poucas pessoas de sucesso é restringir um imenso universo de possibilidades e de aprendizado a um único ser. Aqui se percebe que o que se entende vagamente por inveja deixa de ter significado aparente quando se invade a mente e a diversidade da linguagem humana.
A verdade é que há poucos privilegiados no mundo. Entenda-se por privilégios aqui menos as dádivas materiais e financeiras e mais as conquistas intelectuais, o sucesso pessoal e profissional e, fundamentalmente, a paz de espírito. A impressão é de que para algumas poucas pessoas as coisas parecem acontecer mais que para a maioria. Há sempre o primeiro ímpeto de se distinguir estas pessoas das demais, conferindo a elas uma sucessão de acontecimentos naturais (e sobrenaturais) que, traduzidos em ‘sorte’, colocam suas conquistas no plano do intangível e no mundo dos privilegiados.
Inevitavelmente, todo feito locado nestas condições perde qualquer conotação de conquista para se tornar algo cujo esforço, a própria sorte se encarrega de eliminar. Se há sorte, não precisou de trabalho.
Contas bancárias cheias, altos cargos em empresas, bom desempenho e reconhecimento profissionais, a amizade e o carinho indiscriminado de muitos ou mesmo um curriculum vitae de destaque são elementos essenciais para pessoas que estão ávidas para justificar aquilo que ainda não conquistaram. O que é entendido por muitos como inveja, está mais enraizado na linguagem dos homens que muitas das crenças que arrastamos desde ainfância. É a saída menos dolorosa para a mente acreditar que determinadas conquistas são quase impossíveis e que há pessoas ‘predestinadas’ a elas. Não haveria, portanto, esforço suficiente no mundo capaz alcançá-lo, senão através da dádiva da predestinação.
Ninguém está negando que existe dom. Mas há uma forte relação entre estas capacidades ‘inerentes’ e a motivação obtida desde criança através de elogios e de incentivos. Quando de descobre, ainda criança, que ‘se é bom em alguma coisa’, a dedicação se torna imediata e o sucesso mais palpável. E para descobrir, alguém tem que elogiar e a criança deve entender para então se desenvolver.
É quase insuportável aceitar que escritores de sucesso perderam noites de sono tentando encontrar ‘inspiração’ para um livro. É estranho imaginar que um best-seller não foi construído com a alma da inspiração, mas sim com o suor de anos de dedicação.
Pessoas de sucesso tendem a dormir pouco. Não porque precisam descansar menos que os mortais, mas porque precisam de mais horas do seu dia para ter mais sucesso. E enquanto muitos procuram explicações para justificar a qualidade de um curriculum vitae melhor que o seu, os ‘poucos privilegiados’ continuam debruçados em suas próprias necessidades, trabalhando muito, dormindo pouco e ouvindo críticas.
A inveja, decididamente, não existe. Existe apenas a necessidade inconsciente de justificar limitações. O sucesso alheio se torna inacessível se é produto do acaso. E desobriga qualquer um de tentar. Aquilo que é tido por inveja, não passa de refúgio para quem ainda não entendeu que só é necessário começar.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A ética do nosso quintal

Ética. Nada mais atual para se discutir. O país vive um momento de consternação e de indignação generalizado. Todos nós temos algo a dizer ou para sugerir. É bem prático suspeitar das atitudes de quem está em evidência. Até mesmo em nosso mundo veterinário. Mas quanto disso é de responsabilidade de cada um de nós? Pior. Será que certas doenças éticas deste país, certos vícios de conduta não começam dentro de nossas clínicas?

A etimologia do termo ‘ética’ pode ge­rar confusão. Há quem diga que o verbete tenha seu correlato no latim morale (mo­ral) e que dele derive seu significado. O Dicionário Etimológico*, porém, diz que o termo é originário do grego ‘éthike’, e que este deu origem ao latim ‘ethica’. E explica que Ética é o estudo geral do que é bom ou mau, correto ou incorreto, justo ou injusto, adequado ou inadequado.

Entende-se que um dos objetivos da ética é buscar justificativas para as regras propostas pela Moral e pelo Direito. São coisas bem distintas. O direito tem limi­tações geográficas, pois cada país tem sua legislação. A moral pode delinear atitudes de pessoas que jamais se conhecerão, no mundo todo. E a ética move-se no mesmo sentido, mas com a finalidade de dar sen­tido às duas anteriores e, principalmente, trazendo-as para dentro de casa, do trabalho, enfim, tornando-as reais.

Por que então, ao mesmo tempo que nos preocupamos – com grande razão, aliás – com os limites morais de nossos políticos, não paramos para pensar em quais de nossas atitudes diárias estão realmente pautadas em princípios éticos? Deixemos de lado, desta vez, as questões financeiras e as de ordem legal que regem a medicina veterinária. Pen­semos em algo ainda mais simples.

Por exemplo: se há uma situação crôni­ca de desentendimento no trabalho, será que é correto levar isso ao chefe, “dando nome aos bois”? Pois o que parece paradoxal, anti­ético, é na verdade, a forma mais assertiva de resolver um problema de relacionamento profissional dentro da empresa, do hospital ou da clínica. Mesmo que isso custe o em­prego do colega. Isso é ser ético.
O problema é que ninguém o faz. E é aí que aparecem os casos de segregação, isolamento e o clima insuportável de que ‘tem alguém sobrando’. E o problema só aumenta, porque o líder não sabe de quem se trata e ninguém lhe dá subsídios para saber. Surgem as injustiças.

Ser ético é, antes de tudo, assumir uma postura pró-ativa e não ficar restrito apenas às tarefas que lhe foram dadas. Contribuir para o engrandecimento do tra­balho como um todo, independentemente de quem está fazendo menos que você. Esse é um dos melhores exemplos de boa postura profissional.

É a velha história dos países que já aprenderam com as próprias dificulda­des. A limpeza pública é dever do Estado, certo? Mas é obrigação de cada indivíduo não se limitar a não jogar lixo nas ruas. Isso é o princípio. Fazer algo mais é fis­calizar seu próprio mundo e não permitir que o vizinho o faça; abaixar-se para pe­gar o maço de cigarros que outra pessoa jogou na calçada, deixar de buzinar nas ruas, não deixar o carrinho de supermer­cado atrás de outro carro, por preguiça de tirá-lo do estacionamento ou simplemente deixar que a pessoa ao lado entre primeiro no elevador são atitudes que representam a prática da verdadeira ética do dia-a-dia, da ética que está ao nosso alcance, da ética que está em nosso quintal.
Grandes nações têm cidadãos que deixaram o assistencialismo do Estado de lado e fazem por merecer cada metro qua­drado em que pisam. Estas pessoas estão mais preocupadas com seus próprios erros que com os do Governo. E nós?

* Cunha, A.G. Dicionário etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa., Ed. Nova Fronteira, 2ª edição, 1986, p.939.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Aos filhos...

Em um de meus (pretensiosos) textos, escrevi uma carta à minha filhota... logo em um dia em que ela passava por mim e pedia (implorava) para brincar e eu mergulhado no Leptop... atento a tantas coisas 'importantes'.
O texto gerou certo debate na diretoria, entre os colegas, por seu caráter um tanto pessoal. Depois de publicado, porém, recebi alguns telefonemas e e-mails agradecidos e elogiosos. Fiquei contente com o resultado.
Deixo aqui o link para o texto completo... quem tem filhos ou quer ter, pode ser uma idéia... Ao ler, faça um comentário qualquer sobre o tecido de tinta produzido.
http://www.odontovet.com/download/carta.pdf

Medo de escrever

Em recente crônica que publiquei na Revista da Anclivepa-SP (http://www.anclivepa-sp.org.br/rev-61-04.htm) tratei de um assunto que muitos colegas já vinham me questionando. Onde escrever? Eu quis começa um pouco antes: quem quer escrever? Os questionamentos são sempre norteados pela 'qualidade' da revista em que se vai publicar, mas a questão inicial é que poucos querem, realmente, escrever. E na medicina veterinária, isso é ainda mais notório.
A questão é tão somente querer escrever e, em saguinda, saber qual o objetivo do texto. Claro que o curriculum de um pesquisador precisa de publicações Qualis A, mas este texto fica restrito ao meio acadêmico. Se o objetivo é atingir público maior, menos especializado ou leigo, o destino do texto deve ser outro. E quem fará o texto ser bom será seu autor.
Tudo isso parece óbvio agora, mas muitas pessoas perdem tempo e conhecimento preciosos ao se negarem a escrever ou dar consultoria a revistas 'menos conceituadas'. O texto bem escrito e atraente pode suplantar qualquer preconceito contra este ou aquele veículo.
E ao ler algo ruim em um deles não percamos tempo... publiquemos algo bom em sua próxima edição.