A inveja não existe. É utopia.
Como é possível aceitar a idéia de que o ódio, desgosto e descontentamento possam ser gerados pela simples felicidade ou pelo sucesso de outrem? Este conceito, puro e simplista assim, não pode existir por si só. Deve haver explicação plausível e mais profunda.
É da natureza humana amparar suas frustrações e suas incertezas no sucesso, nas conquistas e nas superações de quem se destaca. O sucesso alheio é a desculpa de quem não conseguiu tanto, e poucos venenos são tão mórbidos quanto as preocupações que desperdiçamos com o que outros têm ou fazem. Nossos objetivos deveriam se basear em nossas próprias necessidades e expectativas. E só nelas.
O perigo de concentrar todas as referências em umas poucas pessoas de sucesso é restringir um imenso universo de possibilidades e de aprendizado a um único ser. Aqui se percebe que o que se entende vagamente por inveja deixa de ter significado aparente quando se invade a mente e a diversidade da linguagem humana.
A verdade é que há poucos privilegiados no mundo. Entenda-se por privilégios aqui menos as dádivas materiais e financeiras e mais as conquistas intelectuais, o sucesso pessoal e profissional e, fundamentalmente, a paz de espírito. A impressão é de que para algumas poucas pessoas as coisas parecem acontecer mais que para a maioria. Há sempre o primeiro ímpeto de se distinguir estas pessoas das demais, conferindo a elas uma sucessão de acontecimentos naturais (e sobrenaturais) que, traduzidos em ‘sorte’, colocam suas conquistas no plano do intangível e no mundo dos privilegiados.
Inevitavelmente, todo feito locado nestas condições perde qualquer conotação de conquista para se tornar algo cujo esforço, a própria sorte se encarrega de eliminar. Se há sorte, não precisou de trabalho.
Contas bancárias cheias, altos cargos em empresas, bom desempenho e reconhecimento profissionais, a amizade e o carinho indiscriminado de muitos ou mesmo um curriculum vitae de destaque são elementos essenciais para pessoas que estão ávidas para justificar aquilo que ainda não conquistaram. O que é entendido por muitos como inveja, está mais enraizado na linguagem dos homens que muitas das crenças que arrastamos desde ainfância. É a saída menos dolorosa para a mente acreditar que determinadas conquistas são quase impossíveis e que há pessoas ‘predestinadas’ a elas. Não haveria, portanto, esforço suficiente no mundo capaz alcançá-lo, senão através da dádiva da predestinação.
Ninguém está negando que existe dom. Mas há uma forte relação entre estas capacidades ‘inerentes’ e a motivação obtida desde criança através de elogios e de incentivos. Quando de descobre, ainda criança, que ‘se é bom em alguma coisa’, a dedicação se torna imediata e o sucesso mais palpável. E para descobrir, alguém tem que elogiar e a criança deve entender para então se desenvolver.
É quase insuportável aceitar que escritores de sucesso perderam noites de sono tentando encontrar ‘inspiração’ para um livro. É estranho imaginar que um best-seller não foi construído com a alma da inspiração, mas sim com o suor de anos de dedicação.
Pessoas de sucesso tendem a dormir pouco. Não porque precisam descansar menos que os mortais, mas porque precisam de mais horas do seu dia para ter mais sucesso. E enquanto muitos procuram explicações para justificar a qualidade de um curriculum vitae melhor que o seu, os ‘poucos privilegiados’ continuam debruçados em suas próprias necessidades, trabalhando muito, dormindo pouco e ouvindo críticas.
A inveja, decididamente, não existe. Existe apenas a necessidade inconsciente de justificar limitações. O sucesso alheio se torna inacessível se é produto do acaso. E desobriga qualquer um de tentar. Aquilo que é tido por inveja, não passa de refúgio para quem ainda não entendeu que só é necessário começar.

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