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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Trespasse

Sombra de ginasta em trampolim
Vida arde e ferve
Vida que dói e que fere

E fura o peito,
pelo defeito que é
tua presença virtual.

O vazio que me compõe
é o silêncio que ensurdece.
Quanto ar e quanta brisa sem destino,
enrubece.

Vazio.

Volta, mas volta inteira!
Não me demita da tua história.
Que da minha já és dona;
que da tua, sou detento.

Ama-me, amarra-me... ou mata-me.
Seja meu trampolim
Mas não permita que eu aceite
A vida inerte de um jardim.

Volta e me obriga,
me agarra e me arranca sem dó.
Me faz trespassar
e desatar este nó.

Que assim enfim
Me faz contrapor
Mesmo que em desamor
esta roda sem fim.
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Publicado em Revista da Anclivepa-SP
Julho de 2012

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Trecho de si (Sobre a dor e o ódio de si)

E o cão, enlouquecido de dor fantasma
ou dor real, que seja
dor insana que lhe percorre o membro,
em desespero ou ato de loucura
que só a dor lacerante ou a ausência de si podem proporcionar,
abocanha o próprio trecho do corpo para, com fúria de dar medo,
mastigar-se e lambuzar-se... e saciar-se do próprio sangue,

com o que se poderia dizer,
sem receio de injustiça contida,
mais ódio de si e do trecho que lhe pertence,
que da própria dor ou daquilo que, enfermo ou não,
seja a causa, a origem, a essência da dor.
           
O ódio, a raiva, o descontrole
tiram a razão até de quem, por força da natureza,
é regido pelo instinto e que,
composto de trecho por trecho de si,
deles depende para continuar vivo
e sobrevivo neste mundo de homens.
           
Certo está que tamanho desespero
dá a qualquer um, cão e homem,
animal ou não - como se não o fôssemos desde a origem
cegos de ódio de si ou de outro,
a licença antinatural de continuar odiando
a coisa e o ser, não a causa e a razão.

E a consequência inevitável, 
o ato seguinte que não se controla,
não pode ser outro senão
a extinção do trecho de si, do ser, da vida;

a abscisão do membro e da esperança de futuro
enquanto a etiologia e a raiz
permanecem intocadas e ao abrigo da alma,
à espreita e prontas para saltear o outro trecho,
o próximo ser
e devorar um resto de vida despreparada.


Publicado na Revista da Anvlivepa-SP
Ed. 70 - 2010

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Fungos do Tempo


Do Tempo
Fazem os fungos seu servidor
Que em um lampejo
Passa ferozmente.

Alguns deles,
Desta existência fazem homenagem
Ao que de mais puro há
No ar
Na terra
Nos velhos troncos de árvore.

Para estes, o Tempo sorrateiro
Passou de outra forma.

Inocente o olhar que, diante
De troncos mortos e de hifas jovens,
Faz do Tempo um só.

E Ele sucumbe
O Tempo perde importância.

Capturada a imagem,
É Tempo de parar...
E simplesmente...
Admirar.