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quinta-feira, 7 de maio de 2009

A ética do nosso quintal

Ética. Nada mais atual para se discutir. O país vive um momento de consternação e de indignação generalizado. Todos nós temos algo a dizer ou para sugerir. É bem prático suspeitar das atitudes de quem está em evidência. Até mesmo em nosso mundo veterinário. Mas quanto disso é de responsabilidade de cada um de nós? Pior. Será que certas doenças éticas deste país, certos vícios de conduta não começam dentro de nossas clínicas?

A etimologia do termo ‘ética’ pode ge­rar confusão. Há quem diga que o verbete tenha seu correlato no latim morale (mo­ral) e que dele derive seu significado. O Dicionário Etimológico*, porém, diz que o termo é originário do grego ‘éthike’, e que este deu origem ao latim ‘ethica’. E explica que Ética é o estudo geral do que é bom ou mau, correto ou incorreto, justo ou injusto, adequado ou inadequado.

Entende-se que um dos objetivos da ética é buscar justificativas para as regras propostas pela Moral e pelo Direito. São coisas bem distintas. O direito tem limi­tações geográficas, pois cada país tem sua legislação. A moral pode delinear atitudes de pessoas que jamais se conhecerão, no mundo todo. E a ética move-se no mesmo sentido, mas com a finalidade de dar sen­tido às duas anteriores e, principalmente, trazendo-as para dentro de casa, do trabalho, enfim, tornando-as reais.

Por que então, ao mesmo tempo que nos preocupamos – com grande razão, aliás – com os limites morais de nossos políticos, não paramos para pensar em quais de nossas atitudes diárias estão realmente pautadas em princípios éticos? Deixemos de lado, desta vez, as questões financeiras e as de ordem legal que regem a medicina veterinária. Pen­semos em algo ainda mais simples.

Por exemplo: se há uma situação crôni­ca de desentendimento no trabalho, será que é correto levar isso ao chefe, “dando nome aos bois”? Pois o que parece paradoxal, anti­ético, é na verdade, a forma mais assertiva de resolver um problema de relacionamento profissional dentro da empresa, do hospital ou da clínica. Mesmo que isso custe o em­prego do colega. Isso é ser ético.
O problema é que ninguém o faz. E é aí que aparecem os casos de segregação, isolamento e o clima insuportável de que ‘tem alguém sobrando’. E o problema só aumenta, porque o líder não sabe de quem se trata e ninguém lhe dá subsídios para saber. Surgem as injustiças.

Ser ético é, antes de tudo, assumir uma postura pró-ativa e não ficar restrito apenas às tarefas que lhe foram dadas. Contribuir para o engrandecimento do tra­balho como um todo, independentemente de quem está fazendo menos que você. Esse é um dos melhores exemplos de boa postura profissional.

É a velha história dos países que já aprenderam com as próprias dificulda­des. A limpeza pública é dever do Estado, certo? Mas é obrigação de cada indivíduo não se limitar a não jogar lixo nas ruas. Isso é o princípio. Fazer algo mais é fis­calizar seu próprio mundo e não permitir que o vizinho o faça; abaixar-se para pe­gar o maço de cigarros que outra pessoa jogou na calçada, deixar de buzinar nas ruas, não deixar o carrinho de supermer­cado atrás de outro carro, por preguiça de tirá-lo do estacionamento ou simplemente deixar que a pessoa ao lado entre primeiro no elevador são atitudes que representam a prática da verdadeira ética do dia-a-dia, da ética que está ao nosso alcance, da ética que está em nosso quintal.
Grandes nações têm cidadãos que deixaram o assistencialismo do Estado de lado e fazem por merecer cada metro qua­drado em que pisam. Estas pessoas estão mais preocupadas com seus próprios erros que com os do Governo. E nós?

* Cunha, A.G. Dicionário etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa., Ed. Nova Fronteira, 2ª edição, 1986, p.939.

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